Uma das piores coisas que pode acontecer para um indivíduo é se sentir excluído da sociedade. Não no sentido cru da palavra, mas o de não poder se encaixar nos padrões em que o meio oferece. Era para eu ser uma pessoa “normal”, mas o advento que foi a internet me tornou uma pessoa mais lúcida, esclarecida e com visão ampla. O “comum” não é o suficiente para mim, pois uma dos way-of-life que eu sigo é “pessoas normais fazem coisas normais”. Eu sempre quero estar um passo a frente, me adiantar as coisas. O suficiente para mim não é suficiente.
Eu adoro livros, dvd’s (DVD’s, não filmes), HQ’s. Uma das coisas que eu mais me orgulho é da minha minibiblioteca que eu tenho aqui na minha estante. Minha mãe briga eternamente comigo para não gastar dinheiro com essas “bobagens” (esse fica para a parte 02), mas esse meu inventário cultural é uma das poucas coisas que me mantem animado e que faça que eu siga em frente para realizar meus sonhos.
E uma das coisas que me motivaram para voltar a escrever aqui foi o caso da palestra “Novas tendências para Web” que eu ocorreu em Curitiba nessa última quinta. Não vou me aprofundar de como foi a viagem de ida, só dizer que foi uma merda. Caras bêbados (não foi nenhum professor), assentos apertados, e gritaria. Ô gritaria maldita! Sabem como é bêbados né? Bêbados e música sertaneja não deveriam se misturar. É um canto, bebo e choro dos infernos, que me fez ir dormir só as 4 horas da manhã. E tudo isso para acordar as 6 e meia. Antes de tudo, eu tinha 2 objetivos nessa viagem: Aprender (claro) e fazer networking. Então eu separei as minhas melhores roupas. Camisa social, sapato, uma jaqueta tipo palitó, perfume, creme para o cabelo, etc. Quando chegamos, fomos para o banheiro nos arrumar. Meus amigos começaram a escovar os dentes, e eu comecei a me trocar. E ai que começa meu martírio: Todos dando risada de mim. “Engomadinho hein Berton?” diziam uns. ”Coisa de viado creme pro cabelo!” diziam outros. Eu claro, nem liguei, pois sabia que isso era necessário.
As palestras foram exatamente como eu esperei: Mídias sociais aqui, conectividade ali, web 2.o lá também. Como eu não fiquei perto deles, não sei se eles reclamaram. Mas aposto que sim. A do Windows e a do Google eram meio que propagandas, mas mesmo assim, eram palestras da Microsoft e da Google. Eram mostrando novas ferramentas, alternativas e soluções. Todos os palestrantes na suas apresentações, mostravam seu twitters. A apresentadora (não sei se essa é a palavra correta para a pessoa que chamava os palestrantes) toda hora enfatizava que se quiserem twittar sobre o evento, poderiam usar a tag #11elw (acho que era isso). Meus amigos deveriam estar se perguntando “Cuma?”. Tudo era informação demais para quem só via essas coisas pelo Fantástico. Deveriam ter resmungado em todas as palestras que isso era coisa de desocupado, coisa de nerd. Mas isso não foi nada. A martelada final ficou quando acabou o evento. Como o evento foi oficialmente finalizado lá pelas 18h, nós tinhamos que ficar até as 21h pra esperar o ônibus voltar, e como estávamos no Shopping Estação, demos graças a Deus que pelo menos nós tínhamos opções para passar o tempo. Bom, pelo menos eu. Então todo mundo debandou, ficamos em um grupo de três: Eu, Ryldo e Angel, todos da minha sala, que logo fomos procurar coisas para fazer.
Fomos andando pelo Shopping e passamos numa das lojas que eu tinha boas lembranças da última vez que eu tinha ido a esse Shopping: Nãoseioque Hoobies (boas lembranças é diferente de boa memória). Fui correndo entrar lá para ver os objetos, que para quem não sabe, era uma loja especializada em miniaturas. Miniaturas de carros, de trem, navios, PVC Figures (tinha um do Full Metal Alchemist que eu babei encima), enfim, tudo que um adulto-criança sempre quis. Chegamos lá, os 2 olhando com aquela cara de bunda para os itens, eu correndo de um lado pro outro olhando as maravilhas e tomando sustos com preços (um navio de guerra para montar custava 450 reais) até que o Angel para em frente a um PVC Figure do Darth Vader e solta a pérola:
Tem “precisão” isso?
Só nessa minha cara foi pro chão. Olhei para o vendedor, ele olhou pra mim. Eu fiz aquela cara de “Tá comigo mas não tá comigo”. Eu falei baixinho, “quem fala precisão é minha vó, a palavra correta é necessidade”, mas não adianta. Já estava na cara que éramos o povo do interior. Não ficamos nem 5 minutos na loja, sendo que EU poderia ficar pelo menos 2h lá só olhando as coisas e lembrando “Ah, esse carro era dos Caça-Fantasmas! E essa nave eu acho que era do Star Trek!”, mas não, isso é um lugar que não tem “precisão” de a gente ficar. O Angel já estava falando que estava cansado, que queria um lugar pra sentar. Então eu falei: “Poderiamos ir para a livraria, lá tem uns sofás confortáveis para sentar”. Ele soltou a segunda pérola da noite: “Fazer o quê na livraria?”. Eu pensei comigo mesmo: “Bom, talvez, pra ler um livro na faixa”. Mas não, isso é muito para alguém da grife dele. E claro, obviamente, adivinha onde paramos? Foram tomar um chopp. Eu sentei, eles pediram o chopp para eles e eu falei: “Vou deixar minha mochila aqui, vou lá na livraria comprar um suporte para livros (coisa que eu estava precisando)” O Ryldo fala: “Vai lá, ler aqueles teus livros!” E obviamente, fui correndo. Como toda pessoa com cultura deve saber, uma livraria é um paraíso. Você passeia, lê, se informa, fica curioso, assustado (com os preços é claro, por isso só compro livro pelo Submarino), enfim, isso ai que todos vocês conhecem. Achei um suporte legal e barato, e pra passar o tempo fui para a sessão de HQ procurar o resto da compilação dos livros do Calvin e Haroldo que faltava na minha coleção. Nisso eu perdi um tempão lá lendo as histórias, pensando se comprava ou não (acabei comprando “A Piada Mortal: Edição encadernada”, que conta a história de como o Coringa surgiu, muito show”. Nisso meu primo de Curitiba me ligou pra saber onde eu estava. Ele estava na UTFPR (Universidade Tecnológia Federal do Paraná) que fica ao lado do Shopping. Então ele veio me fazer uma pequena visita enquanto eu esperava o busão ficar pronto. Nisso eu fui lá no meus amigos, peguei a minha mochila de volta e fiquei o resto do tempo junto com meu primo. Os caras já começaram a dar risada de mim de novo “E ai, já comprou mais livros?” eu nem liguei e continuei o caminho. Virei pro meu primo e falei pra ele: “Vão ser peões para o resto da vida”. Meu primo deu risada e concordou. Conversando um pouco, ele me contou que uma das melhores coisas que ele fez foi namorar uma menina que era filha do dono de uma famosa livraria de Curitiba. Vira e mexe ele ganhava livros, ia lá pegar uns “emprestados”, essas coisas. A coleção inteira do Harry Potter que ele tem não foi comprada, mas ganha.
Uma das coisas que eu faço é ficar antenado nas novas tendências. Uso Twitter, uso wordpress, sou um medium/heavy-user do Google, fiz um semi-orkutcídio. Não fico sabendo das tendências tecnológicas pelo Fantástico, pesquiso o assunto que quero saber mais, leio livros geeks e compro dvd’s e games originais. Mas esses meus amigos não. Eles se contentam com fazer um “programazinho”, fazer um “sitezinho”, fica todo feliz quando ganha 20 reais para formatar uma máquina. Eu não gosto de mexer com hardware pois acho isso um serviço de peão. Nada contra quem mexe, até quando for necessário eu mexo, mas isso ai já está lá atrás. Sinto como se eu não estou no lugar certo, que aqui a parte de TI é apenas um gasto, não investimento. Uma coisa que eu de vez em quando eu falo para minha mãe é que se 100% da população brasileira tivesse cursado o ensino superior, teríamos lixeiros diplomados. É uma necessidade ter gente ignorante, para se fazer serviços que não queremos. Por um lado eu fico feliz que tenha gente ignorante, pois é mais fácil manipular ela, mas por outro lado fico triste, pois estou exatamente no meio delas. E viva a internet!